terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Carta aos pais

Olá a todos,

Esta semana queria partilhar algumas palavras com vocês, principalmente, com vocês pais.

Decidi escrever uma carta para enviar aos pais das crianças com quem tenho trabalhado. Não significa que todos os pais ofereçam demasiados presentes aos filhos ou que não lhes dêem o amor de que eles tanto necessitam. Apenas vos queria deixar umas palavras pois considero serem muito importantes.



A carta é a seguinte:


Queridos pais,

No “Colorir o Sábado” fui aprendendo muitas coisas. Comecei a conhecer-me melhor, a conhecer os meus defeitos e as minhas virtudes e percebi, ainda mais, o quanto gosto de vocês e o quão importantes são para mim e para o desenvolvimento do meu Ser. Percebi também que se brincarem comigo eu cresço melhor uma vez que, pelo gosto da descoberta, aprendo mais depressa.
Meus queridos pais quando estou triste, vos respondo mal e sou mau com vocês, não é porque quero mais um brinquedo, mas apenas quero mostrar que estou aqui e que estou triste.
Mas pai e mãe, como é que eu percebo o que está errado? Como é que eu fico forte e capaz de, quando for crescido como vocês, resistir aos grandes problemas que existem no mundo?
Só serei capaz de ser forte se me deixarem caminhar sozinho sem, contudo, me largarem a mão e me ajudarem resolver os problemas com que me vou deparando. Não se esqueçam de mim, eduquem-me com o vosso amor e com a vossa coragem para que eu seja cada vez mais forte e feliz.

Adoro-vos
Assinado, @ voss@ filh@


Estas palavras fazem ainda mais sentido depois de ter lido o livro Afectividade e Toxicodependência. Alerto os pais que a falta de afecto não significa, necessariamente, que os vossos filhos seguirão o caminho dos tóxicos. A mensagem que quero transmitir prende-se com a importância dos afectos para a prevenção de comportamentos de risco.

Para isso utilizo as palavras retiradas desse livro. São bastante esclarecedoras:


Recordo o caso de um jovem de 23 anos, solteiro, natural e residente na periferia de Lisboa, cuja família, pai e madrasta, disseram suspeitar de sofrer de epilepsia. Referiram electroencefalogramas feitos, mas de resultados desconhecidos e ataques convulsivos, que não conseguiam caracterizar. O próprio, que tinha pendente, pelo menos, um processo judicial, não dava história relevante.
Na dúvida, decidi admiti-lo. O que se passou a seguir dava para escrever um livro. A certa altura, perante obstinada resistência à mudança, arrisquei tentar provocar-lhe o que conjunturara serem os ataques.
A evocação provocada de imagens aterrorizantes, que provocavam pesadelos que lhe interrompiam o sono, rigidez corporal, respiração rápida e ruidosa, enquanto as mãos crispadas começavam a arranhar a face, com fúria, que só posso classificar de animal.
- Pára com isso, já! - ordeno-lhe.
Não me ouve. Seguro-lhe os pulsos e procuro afastá-los da cara. Não cede na fúria auto-mutilante.
Ele tem mais 5 cm que eu, mais vinte quilos e um terço da minha idade. Não obstante, ocorre-me que se perco aquela luta o perco a ele.
Finalmente, venço-o. Puxo-lhe os braços para baixo e os nossos troncos ficam um contra o outro, totalmente em contacto.
Semanas depois, três sessões volvidas, diz-me ele, noutro momento fortemente catártico:
- Aquele foi o abraço que o meu pai nunca me deu!
Édipo?
Talvez não.

(Pereira, 2001 apud Projecto Homem - Centro de Solidariedade de Braga, 2003: 36)




Espero que tenham gostado destas palavras e que estas vos fiquem no coração tal como já estão no meu.
Votos de um Excelente 2009 e que o novo ano sejam ainda melhor que o anterior.

Bibliografia:

Projecto Homem - Centro de Solidariedade de Braga (2003). Afectividade e Toxicodependência. Actas do Workshop no 10º Aniversário do Projecto Homem de Braga. Braga: Diário do Minho.

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